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Alimentação
e Câncer
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A
relação entre câncer e estado
nutricional tem sido estudada desde o início
do século passado por diversos autores,
que sugeriram a má nutrição
como a principal causa de morte por câncer.
A desnutrição protéico-calórica
incide em tomo de 50% dos pacientes com câncer,
acarretando maior risco de toxicidade e de complicações
pós-operatórias, que repercutem
em maior permanência hospitalar, na diminuição
da qualidade de vida e tolerância ao tratamento
e menor sobrevida.
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A caquexia, considerada a última fase da desnutrição
progressiva, constitui complexa síndrome multifatorial,
caracterizada por anorexia, fadiga, fraqueza, disfunção
imune, diminuição da massa muscular e uma variedade
de alterações metabólicas. Essa síndrome
é resultante do conflito entre o câncer que tenta
crescer e se desenvolver e o hospedeiro que tenta inibir,
isolar e desnutrir o tumor, gerando alterações
na ingestão e absorção de nutrientes
e, posteriormente, alterações metabólicas.
Essa síndrome origina-se a partir da resposta de fase
aguda e inflamatória, devido à redução
do esvaziamento gástrico, às alterações
no metabolismo intermediário - especialmente a lipólise
em que o tecido adiposo libera ácidos graxos livres,
e à neoglicogênese quando o tecido muscular é
degradado em proteínas e aminoácidos por diversas
vias, entre elas a via ubiquitina-proteosoma.
Atualmente há várias evidências científicas
que mostram que as células cancerígenas geram
no organismo uma resposta inflamatória, mediada não
apenas pelos hormônios contra-reguladores, como cortisol
e insulina, mas também pela produção
de citocinas pró-inflamatórias, cujo maior representante
é o TNF-? (fator de necrose tumoral alfa). As citocinas
pró-inflamatórias atuam no hipotálamo
diminuindo o apetite e contribuem para deflagrar a resposta
de fase aguda. Assim, ocorre diminuição da ingestão
de alimentos, aumento do gasto energético de repouso
e, em conjunto com os hormônios contra-reguladores,
a alteração no metabolismo de nutrientes que
leva a uma diminuição da massa muscular. Fatores
produzidos pelo próprio tumor, como fator indutor de
proteólise e de mobilização de lipídios,
se adicionam e participam em conjunto com as ações
dessas citocinas, aumentando a degradação protéica
e lipídica. Dessa forma, o crescimento tumoral progressivo
produz alterações no metabolismo intermediário
que levam a um maior consumo de glicose, aminoácidos
e triglicerídios.
Pacientes
oncológicos apresentam ainda déficit crônico
de antioxidantes, muitas vezes devido à redução
do principal antioxidante celular, a glutationa, e as atividades
da enzima que favorecem a sua redução, a glutationa
peroxidase. Há também déficit crônico
de zinco e selênio, minerais com capacidade antioxidante.
Assim, pacientes com câncer apresentam alterações
do estado nutricional, com modificações importantes
da composição corpórea. As técnicas
de avaliação nutricional, com algumas limitações,
permitem que sejam identificadas alterações
em cada compartimento corporal analisado, possibilitando que
o suporte nutricional se tome cada vez mais eficaz.
A identificação de desnutrição
protéico-calórica deve ser baseada no exame
físico, na anamnese clínica e alimentar, em
medidas antropométricas, concentrações
séricas de proteínas e testes imunológicos.
Quando a perda ponderal for maior que 15% do peso habitual,
pode estar associada ao encurtamento da sobrevida em portadores
de câncer.
As estratégias de tratamento para estes pacientes devem
ter como objetivo a reversão da desnutrição
associada à caquexia e a melhora das opções
de tratamento. O suporte nutricional adequado (oral, enteral
ou parenteral) constitui uma arma terapêutica essencial
para que esse paciente possa se submeter ao tratamento clássico,
e deve ser instituído tão logo seja diagnosticada
alteração do estado nutricional para prevenir
a perda de peso e desnutrição, além de
diminuir consideravelmente a incidência de complicações
pós-operatórias.
O tratamento do paciente oncológico passa por etapas
que incluem o estímulo da alimentação
oral, a complementação oral e posteriormente
a terapia nutricional agressiva - NE ou NPT.
A via oral deve ser a preferida para os pacientes que podem
utilizá-la, porém modificações
fisiológicas e anatômicas do trato gastrointestinal
como náuseas, alterações no paladar e
disfagia podem ser contra-indicações relativas.
Nesses casos, deve-se optar por modificações
nos alimentos e suas preparações, selecionando-os
de forma a despertar o apetite do paciente.
De acordo com a segunda diretriz da ASPEN (American Society
for Parenteral and Enteral Nutrition), indica-se suplementação
oral nos pacientes com IMC < 19kg/m², perda ponderal
superior a 5% nos últimos seis meses, aceitação
alimentar inferior a ¾ das recomendações
nutricionais, não tolerância à sonda nasoenteral,
disfagia para sólidos e pastosos ou anorexia. Os suplementos
orais em nutrição têm vantagens porque
não são invasivos, estão associados à
melhora do estado nutricional, estimulam o apetite aumentando
o volume de ingestão dependendo de suas formulações
e propiciam comprovados benefícios aos pacientes mais
idosos e particularmente àqueles em home care.
Alguns nutrientes têm demonstrado efeitos tróficos
ou estimuladores nos mecanismos imunológicos e metabólicos
em estudos experimentais, devendo ser priorizados no tratamento
do paciente oncológico. Os ácidos graxos oriundos
do óleo de peixe, sobretudo o eicosapentaenóico
(EPA), e os antioxidantes têm se mostrado capazes de
modificar favoravelmente a resposta inflamatória.
Estudos recentes que associaram suplementação
de EPA com antioxidantes revelam resultados satisfatórios
no aumento de sobrevida desses pacientes, aumento de peso
ou diminuição da perda ponderal, melhora no
apetite e atenuação do fator indutor de proteólise
e fator mobilizador de lipídios.
As fibras solúveis, ao serem metabolizadas em ácidos
graxos de cadeia curta como o butirato, são capazes
de reduzir a ploriferação de células
tumorais e até induzir a glutationa-S-transferase no
tumor, gerando glutationa.
A glutamina aparenta ter um efeito trófico sobre a
mucosa intestinal e é seu substrato nitrogenado primário.
O uso específico deste aminoácido tem duas vantagens
principais: melhora a função da barreira intestinal
e aumenta a capacidade absortiva.
A arginina apresenta função imunoestimulativa
estabelecida. Altas doses administradas in vitro melhoram
os parâmetros de função linfocítica,
incluindo aumento de linfócitos T-helper e aumento
da atividade das células killer. No entanto, estudos
clínicos ainda estão em andamento.
A deficiência de vitaminas no paciente oncológico
pode ser dividida em três categorias: ingestão
inadequada, absorção alterada e aumento na necessidade
basal. As vitaminas lipossolúveis (Vit. A, D, E e K)
são estocadas em grandes quantidades e geralmente não
há manifestações clínicas. Já
as vitaminas hidrossolúveis (Vit. C, B1, B2, B12, ácido
fólico), apresentam vida curta e pequenos estoques,
apresentando sintomas em pequenos períodos de privação,
com exceção da vitamina B12. Desta forma, na
suspeita de deficiência destas a suplementação
empírica deve ser instituída em pacientes com
obstrução mecânica do trato digestivo,
já que sua absorção fica comprometida.
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Nutricionista
Bruno P. Couto
Residência
em Nutrição Clínica - programa
de clínica cirúrgica -HUPE
Prof substituto - UERJ
Nutricionista do Hospital Geral de Bonsucesso
HGB
Nutricionista Conveniado no Projeto Núcleo de
Estudos Governamentais / UERJ / SEAP / Secretaria de
Segurança Publica
Atendimento nutricional domiciliar
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