Como se livrar da compulsão por doces

O açúcar é um carboidrato refinado que possui um efeito devastador sobre nossa saúde. Está associado à hipoglicemia, ao diabetes mellitus, à arteriosclerose, à obesidade, ao aumento do ácido úrico sérico, ao aumento da incidência de cálculos biliares e à diminuição da função imune, aumentando a suscetibilidade à infeccão e ao câncer.

Favorece o crescimento e manutenção da cândida albicans, predispõe a alterações comportamentais e à perda urinária de vitaminas e minerais, em especial do cálcio, levando a maior incidência de osteoporose. O açúcar e outros alimentos refinados ricos em açúcar não contém os micronutrientes necessários para a sua própria metabolização, facilitando o seu próprio armazenamento. Além de tudo, pode virar vício!

O vicio por carboidratos, pode ser descrito como uma necessidade recorrente por amido, beliscos, junk food ou doces. O termo compulsão por doces ou "sugar craving" remete à relação entre carboidratos, insulina e apetite. O desejo por doces parece ser mais prevalente em mulheres do que em homens.

Não se sabe exatamente quais são os fatores que causam a compulsão por doces. Alguns estudos sugerem que o decréscimo da glicemia estimule a fome. Isso pode explicar o desejo incontrolável por doces, que são uma fonte energética pronta e rápida.

Sabemos que a ingestão de carboidratos aumenta os níveis de insulina, que tem como função reduzir a glicemia. Isso causa o desejo por mais alimento, principalmente carboidratos, sendo ainda mais pronunciada com alguns tipos de carboidratos. Açúcar, alimentos refinados e aqueles com alto índice glicêmico provocam um aumento na glicemia e níveis de insulina, o que leva a maiores episódios de compulsão.

Outra teoria bastante aceita para justificar o consumo abusivo de doces baseia-se na modulação dos níveis de serotonina. A ingestão de carboidratos aumentaria a disponibilidade do triptofano (precursor da serotonina) no cérebro. Os carboidratos com alto índice glicêmico têm mais condições de promover síntese de serotonina e conseqüentes melhoras no humor. Para pessoas sensíveis, cujos níveis de serotonina são baixos, o açúcar funciona até mesmo como uma automedicação.
No entanto, outros componentes nos influenciam. O alimento está fortemente conectado às nossas emoções. Para muitos, apenas os pensamentos na sua comida favorita traz grandes associações com imagens, sensações, emoções e memória, de forma que se torna praticamente impossível dissociá-los. O estresse também leva a um aumento da excreção renal e diminuição da absorção intestinal de alguns minerais que estão associados à compulsão. A tensão é outra sensação que além de favorecer o vício por doces, dificulta a perda de peso, uma vez que há maior liberação do cortisol.

O desejo aumentado por doces também pode estar relacionado a deficiências nutricionais, principalmente de magnésio, cromo, e vitaminas do complexo B. É preciso pesquisar a alergia alimentar oculta e o crescimento fúngico crônico, pois eles também podem levar a sintomas parecidos com uma dependência química.

Dentre o desejo por doces, chama atenção as pessoas que se dizem compulsivas por chocolate, os "chocólatras". Na literatura existem quatro teorias básicas para justificar este comportamento: motivação sensorial, possível ação farmacológica por componentes bioativos, busca específica relacionada à carência de micronutrientes e resposta hormonal (exclusiva às mulheres).

Alguns pesquisadores atribuíram o vício pelo chocolate à tiramina e à feniletilamina contidas no chocolate, cuja ação é semelhantes a das catecolaminas. A feniletilamina age como um estimulante e antidepressivo similar à epineprina e anfetaminas devido a sua ação e composição. Níveis de feniletilamina e seus metabólicos são geralmente baixos em pessoas com depressão, mostrando que a procura por chocolate pode ser uma forma de automedicação. Especula-se ainda que a busca pelo chocolate possa estar associada às metilxantinas presentes no cacau (cafeína e teobromina). Alguns autores afirmam que poderia haver um sinergismo que potencializaria o efeito estimulante das metilxantinas nos produtos a base de cacau. Além disso, o chocolate também possui substâncias que mimetizam a ação da anandamida, um neuromodulador que aumenta a atividade da dopamina, o que seria fundamental para a compulsão, caso esteja em quantidades suficientes.

Outra teoria sugere que a busca pelo chocolate poderia ser motivada por deficiência de micronutrientes, como o magnésio, principalmente no período pré-menstrual. Sua deficiência pode interferir nos níveis de dopamina e, assim talvez alterar o humor. Embora possua um índice glicêmico mais baixo em comparação a outros doces, é muito associado à compulsão. Muitos referem culpa após sua ingestão, fazendo com que descartemos a teoria da serotonina que seguiria uma sensação de bem estar.

Ainda não está claro qual é o melhor método de evitar o desejo por doces, ainda mais por que essas respostas individuais aos carboidratos podem variar consideravelmente. Algumas pessoas sugerem reduzir muito a ingestão de carboidratos, assim reduzindo a resposta à insulina e conseqüentemente o vício. Outros recomendam escolher carboidratos com baixo índice glicêmico para não estimular tanto a insulina e o apetite. Outras recomendam consumir o alimento que se tem desejo (doces) em pequena quantidade, mas enquanto isso pode ajudar uns, pode causar uma serie de processos bioquímicos nas pessoas sensíveis ao açúcar que se traduz numa vontade ainda mais acentuada por doces.

Algumas dicas podem ser úteis para o combate à sua compulsão:

- Faça diariamente 3 refeições principais e mais 2 pequenas refeições ao longo do dia para controlar seus níveis glicêmicos e a fome.

- Tenha certeza de que você come porções adequadas de carboidratos complexos, principalmente em refeições depois das quais você sente maior desejo por doces.

- Esse desejo aumentado pode estar sinalizando apenas uma necessidade maior por carboidratos.

- Certifique-se que sua dieta contém adequadas porções de proteína animal e vegetal. Uma quantidade satisfatória pode aumentar a saciedade e diminuir sua vontade de doces. Se a sua dieta já contém proteínas demais, não aumente ainda mais, pois isso pode exacerbar o seu vício.

- Reduza o consumo de doces, açúcar, cafeína e álcool.

- Pode ser interessante, ou até mesmo necessário, estipular uma freqüência semanal para o consumo de doces, assim favorecendo sua maior adesão aos tratamentos dietéticos. Prefira consumi-los após refeições com bom conteúdo de proteínas e nunca com o estômago vazio, pois a queda na glicemia muito rápida provocará maior compulsão pelo mesmo.

- Escolha alguns substitutos naturais ao açúcar para adoçar como: mel orgânico, melado, tâmaras, concentrados de frutas, uvas passas e stevia. Embora eles sejam naturais ou menos refinados que o açúcar, eles não devem ser utilizados em grandes quantidades. Para muitos não causam as mesmas reações que o açúcar e ainda agregam algum valor nutricional.

- Não utilize aspartame como substituto ao açúcar, pois ele diminui a biodisponibilidade do triptofano, reduzindo os níveis cerebrais de serotonina, contribuindo indiretamente para mudanças de humor e distúrbios do sono. Além disso, seu alto conteúdo de metanol pode provocar dor de cabeça, perda de memória, depressão, náuseas entre outros.

- Uma vez que sua necessidade por doces possa ser apenas uma necessidade emocional ou psicológica, não tente eliminá-los da dieta enquanto não tiver um suporte social, emocional e, sobretudo, nutricional adequado.

- Pode ser útil a suplementação de alguns nutrientes. Cromo, biotina e glutamina em especial, diminuem o vício por doces. Além disso, estão indicadas as vitaminas do complexo B e vitamina C. A dieta apropriada associada a uma suplementação é a combinação ideal ao combate a essa compulsão alimentar.

- Os exercícios físicos podem ajudá-lo a diminuir o consumo de chocolate. Pesquisas preliminares têm descoberto que exercícios aumentam os níveis de feniletilamina e que poderia ser responsável pelos benefícios psicológicos do exercício

Portanto, estando o seu metabolismo mais balanceado, de acordo com estas modificações dietéticas, menor será a compulsão por doces.


PATRICIA DAVIDSON HAIAT

Nutricionista